3 de abr. de 2009

RECEBENDO O TROCO


Por Olsen Jr.

Tenho alguns conhecidos que só se preocupam com as pessoas ao redor quando a ausência delas se transforma em desdém pelo que eles próprios estão fazendo. Calma que já explico: se o sujeito é um escritor e está lançando um livro, ele gostaria que todos os escritores da cidade o estivessem prestigiando, embora ele - o autor - nesse caso, tenha ido a poucos eventos desse gênero durante o ano; se promover um recital de poemas, bem, é muito fácil apontar as ausências, embora ele também não tenha prestigiado outras iniciativas dessas, como os contadores de histórias, as leituras públicas ou mesmo o programa já institucionalizado que ocorre uma vez por mês idealizado pela Fundação Franklin Cascaes de Cultura “A Cidade Contada”, por exemplo.

Então, não há reciprocidade. Quando acontece com “os outros” é refresco, mas quando a maldição dos ausentes recai sobre “nós” todos passam a ser alienados, indiferentes e até pobres de espírito.

Pessoalmente, resolvi o tal “dilema” de maneira dialética: você me prestigia e eu te devolvo na mesma moeda, se não puder ir, alguém irá me representar, como manda a etiqueta social. Se você me ignora, não tenhas a menor dúvida de que o troco por este pagamento já está sendo providenciado e chegará à exata proporção do que foi gasto.

Esses pensamentos me vêm assim, enquanto tomo o café tentando ler um jornal, mas invariavelmente, com os ouvidos ligados no que diz um desses poetas apreciadores de recitais. Talvez eu tenha sido duro, mas é o que me ocorreu na hora.

Ele reclama para um amigo comum que não tinha ido ao seu último recital, depois aponta o dedo para mim e afirma que também não me viu lá, dobro o jornal e simulo um ar constrito, esse falso ar de seriedade que alguns políticos ostentam quando vão contar outra mentira, e finjo prestar atenção.

Foram mais de 800 versos. – afirma com orgulho. Não sei quanto tempo fiquei lá, recitando, e todos prestando atenção no mais completo silêncio.

Olho para o cara que veste uma camiseta branca com um blazer escuro (uma caracterização da juventude na novela das 19h), uma calça frisada com um tênis sem meia. Sobre a cabeça, um chapéu desses que foi o orgulho de meio mundo na década de 1920. Tinha passado dos 60 anos esse meu amigo, era uma contradição em cima de duas pernas. Se fosse ator seria um canastrão.
Peço outro café e volto para o jornal enquanto ele se afasta para fumar um cigarro fora do recinto. Interessante, penso, alguém que nunca vi em lugar nenhum a não ser em seus próprios recitais, reclamando de que não o prestigiei.

Contive-me para não magoá-lo. Um poeta não ofende outro, a menos que seja intencionalmente, rio do meu sarcasmo e do autodomínio que me impediu de contar a história de um músico que costumava se apresentar em lugares públicos, sempre sozinhos, e num desses recitais, tão logo iniciou, as pessoas começaram a se retirar do recinto... Aos poucos, um a um, levantavam-se e saiam. O tempo passa rápido nessas circunstâncias, até restar um único cidadão para ouvi-lo. Então, o músico interrompe a récita e começa a falar para o seu último e único ouvinte: “Meu amigo, diz, quero cumprimentá-lo pela sua sensibilidade apurada, pelo bom gosto musical, por uma educação auditiva que se adquire à força de muito estudo e dedicação, leituras e principalmente, de vivência em concertos... Como disse, o senhor está de parabéns...

Nisso, ainda aturdido pelo que está ouvindo, o cidadão olha para os lados e para o chão, depois, surpreso e exasperado, grita: “gosto musical é o cacete, quero saber quem foi o cretino que roubou as minhas muletas”...

Sejamos francos, mais de 800 versos, nem eu que sou poeta aguento!

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