24 de abr de 2009

O ENIGMA DOS BILHETES


Por Olsen Jr.

Tem ações que estão de tal maneira incorporadas em minha vida que quando as executo, raramente me dou conta de que, muitas vezes, tal atitude pode causar estranheza.

Outro dia, peguei uma comanda dessas de restaurante e fiz uma anotação, depois a guardei no bolso da calça. Mal tinha completado o gesto, ainda com a caneta na mão, retomei o mesmo papel, e com um sorriso na cara, fiz outra observação, desta vez, no verso, dobrei o papelucho e tornei a arquivá-lo no mesmo lugar.

Uma conhecida minha, que eu não tinha percebido no ambiente, se aproximou, indo em direção ao banheiro e ao passar por mim exclamou “daria tudo para saber o que você anotou nesse papel”, e continuou caminhando sem se deter. Logo em seguida, de volta, afirmo que ela não precisa me dar nada para saber, afinal não tenho segredos que mereçam uma distinção a ponto de negar o seu conhecimento. “Deixa ver então”, provoca. Pego o papel que tem o número 09 em cima e mostro. Ela franze o cenho, como se estivesse fazendo enorme esforço para ler e soletra: “... Todos os deuses são os mesmos deuses”... Depois, espia no verso, faz a mesma cara e diz “...

Se não fizermos por nós, eles - a expressão nos ignoram está riscada e substituída por “não estão mais aí”... Ouço um “huumm!” de aprovação, seguido de uma pergunta “isso vai dar no quê?”. Por enquanto é só uma dica, pode aparecer num diálogo num conto, talvez um leitmotiv para uma crônica, alguma coisa sai, porque não desperdiço material. Com um “boa sorte no teu trabalho”... Vejo-a indo para a mesa onde a esperam algumas amigas...

Interessante, no final do dia, normalmente, estou com o bolso cheio desses papéis, mas naquela hora me surpreendi, aquele tinha apenas o número 09, o que significava, em termos práticos, que o dia não tinha rendido, quer dizer, não pensei o suficiente, não observei sequer o necessário, era duro mesmo manter aquele “alerta permanente” porque tinha a impressão que o mundo todo estava prestes a explodir e ninguém estava dando a mínima.

Esse hábito, aliás, acho que todo o escritor possui. Ninguém que escreva, que eu tenha conhecido ou conheça, abstraindo o Fausto Wolff, confia na própria memória.

Depois que a mulher se afastou comecei a fazer um balanço do mês, pego outro papel está escrito “Na lotérica: o cara pergunta “tem uma fezinha aí?”. O outro responde “tenho”. “Quanto custa?”. “Uma custa R$5,00 e outra R$8,00, mas essa tem dupla chance de ganhar”. Passa uma fração de segundos e o cara toma a decisão. Pô! “Se não tenho nenhuma chance com uma, para que vou me exibir comprando outra cartela com duas”. Rio sozinho, aquela anotação está há mais de 15 dias no maço do outro bolso que sempre levo comigo mesmo mudando de calça. É uma espécie de reserva quando as coisas não vão bem.

Observação no Beco dos Poetas, 37: “tem dias que não entram (carros) e não sai ninguém; em outros, só saem (carros) e não se sabe de onde que vêm!” Até rimou, ou por isso tenha anotado. Depois de uma batida no trânsito, a observação sobre um dos condutores “Além de pouca prática, o cara era nervoso, e segundo testemunhas, ainda tinha a síndrome do pânico, mas só quando estava estressado, o que era o caso, acrescento”. Está louco, penso. “O importante não é a idade que se tem, mas o que fazer com o que se tem nessa idade” (respondendo ao Salim Miguel, na Casa da Memória, a célebre pergunta que sempre me faz quando me encontra “que idade tens?” E ele mesmo acrescenta “é um guri”...). Após o técnico de um clube afirmar que “tinha a humildade de reconhecer o erro ao substituir um jogador”... “A humildade não é talento”, concluo... Aquela miscelânea não tinha fim. “Se extrair a palavra “galera” do vocabulário brasileiro, muitos programas de televisão irão a falência”, no que eu concordo... Tem coisas que não se explicam, se é que isso serve de explicação!

Ilustração: Gallo Sépia

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