29 de abr de 2009

Os paradoxos da democracia


Por Amílcar Neves*

Existem as pessoas que são tidas por formadoras de opinião e aqueloutras que têm opinião formada (e da qual, geralmente, nunca abdicam).

Houve tempo em que os formadores de opinião não podiam se manifestar - pelo menos, não o podiam fazer livremente. Somente às pessoas de opinião formada era dado dizer o que pensavam - sempre num círculo muito ínfimo e restrito, e desde que, se contrárias, suas opiniões não chegassem jamais a ouvidos oficiais, direta ou indiretamente, ou seja, neste caso: através de delação, que podia muito bem ser anônima e, até, absoluta e absurdamente infundada. Daí instaurava-se o medo, obviamente: as portas costumam ter excelente audição e as notícias (ruins) sempre correram céleres.

Nesse tempo, a tecnologia de comunicação, muito mais do que primitiva, era caríssima e volumosa, quer dizer, não se conseguia escondê-la com facilidade nem instalá-la sem uma boa dose de barulho, tempo e poeira. O controle das opiniões e da informação se fazia de forma muito simples, com uma equipe de censores em cada redação de jornal, estação de rádio e estúdio de televisão. Livros, músicas, filmes e peças de teatro somente vinham a público se previamente autorizados pela censura; muitos nunca viram a luz do dia.

Restavam os rádios Transglobe da Philco, com cinco faixas de ondas curtas em todas as metragens, para inteirar-se alguém, sintonizando a BBC de Londres, a Voice of America, a Deutsche Welle ou a Radio Belgrano de Buenos Aires, do que ocorria no Brasil. Mas então os técnicos do regime passaram a emitir ruídos infernais na frequência das principais emissoras estrangeiras.

Hoje, a miniaturização e eficiência dos artefatos tecnológicos virtualmente aboliram a privacidade - o que não significa que os crimes comuns e do colarinho branco tenham diminuído ou aumentado, apenas são expostos em tempo real -, enquanto a Internet abre infindáveis espaços para as pessoas de opinião formada opinarem até sob anonimato, usando um mau português ou termos chulos.

A estas, muita vez, ocorre de considerar como bons os tempos da ditadura, em que não haveria corrupção nem roubalheira generalizada, quando o que não havia, porque censuradas, eram a notícia dos escândalos e a denúncia pública dos envolvidos.

O ser humano é o mesmo: não ficou melhor nem pior depois do 1o de abril de 1964 ou após a redemocratização de 1985.

*Amilcar Neves, escritor. Crônica publicada na edição de hoje (29.4) do jornal Diário Catarinense.

Ilustração: Gallo Sépia

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