11 de dez de 2008

Resposta de Raul Longo a J. L. Cibils

J.L:

Eu não esqueci das 65 áreas de interesse social a que você se refere. Acontece que eu sequer sei que existem essas 65 áreas, pois ao meu ver todo ponto de concentração humana é uma área de interesse social só.

Não sei a que prefeita você se reporta, mas alguma que aponte 65 ou 650 áreas de interesse social, está assumindo que as questões sociais do restante da cidade não lhe interessam.

Concordo com você que primeiro nossos prefeitos e governador deveriam atender as necessidades dos moradores, pois moradores mal atendidos e marginalizados por seus próprios governantes tendem a maltratar o turista, e talvez daí se explique sua má vontade com o que chama de "esses farofeiros".

No entanto, você se esqueceu de que a maioria de nossas cidades litorâneas não são industrializadas nem possuem outra fonte de arrecadação que não seja o comércio.

Você tem idéia de quantos bares, restaurantes, lojas, feiras de artesanato, e até salões de cabeleireiros só funcionam em finais de ano? Inclusive em Florianópolis, a mais populosa dessas cidades?

Tem idéia de quantos garçons, balconistas, artesãos, pescadores, maricultores e uma infinidade de outros profissionais sobrevivem graças aos preconceituosamente chamados "farofeiros"?

Também me incomodam os vanerões e pagodes berrados pelos alto-falantes dos porta-malas abertos de seus carros, mas você faz idéia quantos daqui terão de deixar seus carros na garagem pelo resto do ano, na falta desses farofeiros para garantir os salários que pagam o combustível até a próxima temporada?

E se nossos péssimos políticos não pensaram nos riscos de nossa população primeiro, não adiantará pensar em segundo se não houver renda que financie o concerto do estrago que já deveriam ter previsto antes.

E de onde virá essa renda? Do porto de Itajaí não tão já, pois estará interditado no mínimo até meados do próximo ano. O principal de nossa produção têxtil e ceramista está localizada nas áreas afetadas. Nossa maior cidade industrial, como você bem lembrou, já estava comprometida por diversos problemas, agora agravados pelas chuvas.

O que sobra? Os frigoríficos de Chapecó?

A menos que seja funcionário público, certamente até o meio do ano você também terá saudade dos "farofeiros".

Essa propaganda não é enganosa, pois o turista não se importa de demorar mais 2 horas para estar uma semana, duas, ou um mês bebendo cerveja beira-mar.

Tudo o que ele quer é comer camarão, comprar camiseta, chinelo, óculos escuros, artesanato, lembrancinha e cadeira de praia.

Se fossemos realmente inteligentes, ofereceríamos muito mais de nossa cultura, de nossa culinária, de nossa música e história. E eles comprariam como compram dos baianos, dos recifenses, cearenses e potiguares.

Mas mesmo com nossa falta de auto-estima e valorização de nossa gente, o turista não está nem sabendo que existe área de risco no meio da Ilha, pois enquanto não formos ameaçados por tsunamis e o governador não puder jogar no mar o esgoto dos hotéis que queria construir nas areias das praias, não haverá risco nenhum para essa nossa galinha dos ovos de ouro.

Mas no momento em que nós, que aqui moramos, aprendermos a exigir de nossos governantes e administradores maior cuidado com os riscos a que estamos expostos todo o ano, com a precariedade de nosso transporte coletivo, com o planejamento que não existe; de onde você acha que eles poderão tirar verbas para atender nossas reivindicações?

Pode estar certo J.L., de que não será de outros ovos de ouro do que esses que já embolsam. Não será de outros, porque outros não existem. E embolsam porque ao invés de exigir o cumprimento das promessas eleitoreiras das quais você acertadamente lembrou, preferimos culpar os turistas e acreditar nas propagandas eleitoreiras, estas sim enganosas, para reeleger os mesmos a cada 4 anos.

Enquanto os ovos de ouro, J.L., só dão durante 2 meses por ano.

Mas quem sabe se de tanto deprecia-luz ou de tanto aceitar imposições dos medos da mídia por riscos fictícios, para que não enxerguemos os reais, consigamos espantar a galinha para bem longe.

O nordeste agradece, pois lá ainda se lembram das corretas posições do carro e dos bois.

Aqui já nos esquecemos até de como nos conduzir, e vamos levando o carro para onde a mídia mandar.

Raul Longo
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