26 de dez de 2008

Esta época do ano (Amílcar Neves)


- Ora, ora, ora - vociferou Manoel Osório, visivelmente aborrecido. - Quer dizer então que nesta época do ano é como se todos morressem e, por um passe de mágica, virassem bonzinhos, santos de auréola na cabeça e tudo o mais, remidos de todos os pecados, até os mais grosseiros e cabeludos?

- Não falo de magias, mas de obras do Senhor, de milagres do Pai operados sobre os homens de boa vontade pela intercessão piedosa do Filho - retruca padre Agenor, esforçando-se por manter a calma e o autocontrole. Muito daria para ver-se longe dali, tratando com gente de outro quilate e de muito mais fé e crença em Deus.

- Ora, Agenor Osório, estamos só nós dois aqui, entre primos, divagando sobre questões filosóficas e existenciais. Não temos, pois, testemunhas desta nossa conversa, sequer testemunhas de Jeová ou espias de Maomé; este nosso encontro não está sendo filmado nem gravado...

- Deus Pai Nosso Senhor é onisciente - provoca padre Agenor, sorrindo com discreta malícia enquanto, preventivamente, faz o sinal-da-cruz.

- Claro - exclama Manoel Osório -, aquele deus que é um olho dentro de um triângulo, emoldurado e preso por cravos bem à frente dos assustados alunos de todas as salas de aula da minha infância, pairando severo e ameaçador acima da frase intimidativa "Deus Me Vê", acusando-nos a cada um de nós: "não existe saída, pagãos, entreguem-se ou assem no fogo perpétuo dos infernos".

- Como se houvesse vários infernos...

- Ora, Agenor Osório, pelo amor do teu deus: não será verdade então que cada um de nós pena no seu próprio inferno, que cada qual cria o seu inferno particular e exclusivo em função das escolhas que faz na vida?

- A todo que crê é dada a graça de expiar as suas faltas, purificar a sua alma e ser perdoado pela infinita misericórdia do Senhor - no íntimo, padre Agenor não gosta nem um pouco do que está dizendo, como se apenas repetisse leituras passadas - e recorrentes.

- Crer, aí é que eu queria chegar, meu caro primo! Falemos, sim, das nossas crenças mais inconfessáveis! - Manoel Osório se inflama, seus olhos brilham de forma temerária. - Dize-me, Agenor Osório, acreditas de verdade, do fundo da tua inteligência, que as pessoas fiquem subitamente boas e cordatas apenas porque passamos por esta época do ano? E, já adiantando a pergunta conseqüente: se assim é, por que elas desandam uma ou duas semanas depois?

(Amilcar Neves, escritor)


"Estimadas Amigas, Caros Amigos. Sejamos, cada um de nós, sempre o mesmo, no Natal quanto em todos os dias de 2009: sem grandes hipocrisias. De coração, Amilcar Neves".


* Foto: detalhe do presépio montado por Roberto Martins da Silveira na residência de Dircéa Martins da Silveira (Trindade, Florianópolis-SC).

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