1 de dez de 2008

A resistência dos flagelados (2)

Cena da enchente em Blumenau. Foto encaminhada por Ivone Grauppe Ventura (Blumenau) a Marize Lippel (Florianópolis), sem autoria definida.


Maro Schweder, historiador residente em Itoupava (Blumenau), encaminha uma avaliação da resistência dos flagelados em desocupar residências nas áreas de risco. Texto elaborado a pedido do Sambaqui na rede.

Observando a situação das pessoas no Vale do Itajaí, em meio a mais uma catástrofe natural, uma série de questões chamam a atenção. Entre essas podemos destacar os habitantes das chamadas “áreas de risco”. É grande a resistência por parte destes em abandonar suas casas. De um lado existe a pressão do poder público, que munido do argumento de “preservar a vida” desses indivíduos exige sua retirada imediata. Por outro lado, esses moradores alegam que não podem deixar seus lares sem mais nem menos. Há uma história construída naqueles lugares, segundo suas afirmações.

Esta manhã (01/12) ouvi numa rádio da cidade (a qual não me recordo o nome) uma entrevista com o comandante do corpo de bombeiros de Blumenau. Um dos temas abordados foi justamente o da resistência dessas famílias em deixar o local onde moram. Segundo ele, essas pessoas simplesmente não podem permanecer nessas áreas, e caso continuarem resistindo em deixar esses locais, será feito uso da “força” para “evacuar” essas regiões (termos utilizados pelos entrevistado).

Não resta dúvida que a questão é delicada. Sem dúvida o homem é um “animal social”, como já afirmou Aristóteles. Creio, particularmente, que esse “ser social”, inerente a nós seres humanos, não se refere apenas ao convívio com os demais, mas entra na perspectiva de uma “delimitação e construção de espaços”. Sendo retirados dessas “áreas de risco”, as pessoas não serão privadas do convívio social, mas sim do espaço. Parece-me, que no imaginário desses personagens, o espaço que ocupam está fortemente ligado com sua noção de vida social. Naquele espaço existe uma história, uma identidade como fazendo parte de um determinado grupo e espaço social. Deixar tudo isso para trás do dia para a noite, parece revirar o seu mundo de “cabeça para baixo”. Digo “mundo”, devido ao fato de tratar-se disso para os atingidos. Até ai, seus argumentos são convincentes.

Mas retornemos agora para a questão da “preservação da vida”. Esta no momento parece ser a maior preocupação do poder público. Quanto às casas, houve-se muito por aqui, e como até já veiculou nos meios de comunicação, serão reconstruídas; mas isto em outro instante. O que interessa agora é “salvar vidas”, conforme argumentam as autoridades.

Aí estão postas duas situações conflitantes: a do atingido pelas cheias e desmoronamentos de terra; e as autoridades que representam o poder público. Olhando a coisa de perto, e buscando compreender melhor o que está acontecendo por aqui, fica-se em dúvida. É comovente observar pessoas sendo retiradas de suas próprias casas. Quanto a isso, nosso lado humano (por mais que este esteja afetado pelo mundo “louco” em que vivemos) fica bastante sensibilizado. Mas creio que a “preservação da vida”, no final de contas, ainda é o mais importante.

Blumenau é uma cidade que possui uma série de problemas, e entre esses, sua geografia acidentada. Isso faz com que o trânsito seja bastante complicado, e que também surjam as chamadas áreas de risco. Nessas áreas, encontramos grande parte da parcela da população menos favorecidos economicamente da cidade. Mas também há uma série de deslizamentos em encostas onde estão construídas em sua maioria casas bem estruturadas, pertencentes a pessoas de razoável e elevado poder aquisitivo. Parece que por aqui, não apenas os “pobres” escolheram as encostas para morar. Talvez devido à geografia da cidade, esses sejam locais com vistas amplas e bonitas para os vales. Mas uma coisa é certa, são locais perigosos para morar. O constante risco de cheias no vale sempre coloca as pessoas de sobre-aviso. Basta chover um pouco mais, que aquele imaginário de 1983 e 1984 sobe à tona. E eis que história muito parecida se repetiu.

Hoje a coisa parece mais complicada. Há quinze anos atrás, o nível do rio Itajaí Açu esteve bem mais elevado do que por esses dias. Mas naquela vez, baixadas as águas, as pessoas puderam voltar para seus lares, fazer a limpeza de suas propriedades, e em questão de dias, lentamente suas vidas voltavam ao normal. Agora é coisa é bem mais complicada. O principal problema é a grande quantidade de desmoronamentos que levou muitas casas consigo, deixando ainda um grande número em situação de condenadas, não podendo mais ser habitadas por pessoas. Pelo jeito, a coisa vai demorar até se normalizar. Falam por aqui, de pelo menos um ano.

A bem da verdade, a discussão acerca dessas áreas de risco de tempos em tempos era levantada por alguma autoridade. Mas como (creio eu), sempre envolve interesses maiores, a questão sempre acabava caindo no esquecimento. Agora aconteceu o pior. Vemos claramente que algo tem de ser feito. Conforme especialistas que estiveram em Blumenau, em torno de 60% das áreas atingidas por esses desmoronamentos de terra não poderão ser mais ocupadas. Este provavelmente seja um dos maiores motivos que faz tantas pessoas relutar em abandonar suas casas. As pessoas parecem “desconfiar” que não poderão mais voltar. Não se trata de passar uma semana alojado em algum abrigo improvisado. É algo bem pior: não poder mais voltar “nunca mais” para o local onde residiam até então. É diante destas circunstancias, creio eu, que esta população resiste tanto. Além do que já falei acima, referente à construção do espaço e da história pessoal que cada um daqueles habitantes vivenciou naqueles locais.

Parece-me que em Blumenau a coisa é diferente do que no Morro do Baú. Não sei muito bem a realidade do segundo, mas parece se tratar de uma comunidade agrícola em sua maioria. O que a terra soterrou por lá não foram apenas casas, mas sim propriedades rurais de onde era retirado o sustento dessas famílias. Trata-se de camponeses em sua maioria. Talvez seja um problema ainda mais complicado do que se passa em Blumenau. Aqui, trata-se de trabalhadores urbanos, que em sua grande maioria poderão voltar para o trabalho assim que toda esta situação caótica se normalizar. No caso dos moradores do Baú não é bem assim. Essas pessoas estão perdendo tanto suas casas como seus meios de subsistência (propriedades agrícolas). Houve inclusive um caso de uma família que morreu soterrada, que já havia sido retirada do local, mas acabou retornando, onde encontrou a morte. Esse exemplo nos mostra bem a dramaticidade dessas pessoas.

Bem, de modo geral, esta seria minha visão acerca do que está acontecendo no Vale do Itajaí, precisamente Blumenau, onde resido. A preocupação por aqui continua grande. Ninguém sabe o que ainda pode acontecer. Qualquer pessoa que more numa área um pouco mais elevada tem motivos suficientes para se preocupar. Espero estar contribuindo com alguma coisa através de meu relato. Vou ficando por aqui. Um forte abraço, Maro Schweder.

Maro (Florianópolis, 23.4.2007)





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