10 de dez de 2008

Bush para o Brasil

É incalculável o desperdício de talentos e experiências das corporações, governos e povos (nesta ordem decrescente de poder). O elemento é exaustivamente preparado (ele é treinado, diz o mercado, como se mera máquina programável fosse), assume elevadas funções e, ao longo dos anos, acumula um invejável capital de conhecimentos sobre como lidar com as situações mais esdrúxulas e inesperadas: bem ou mal, ele desenvolve a extraordinária capacidade de tomar decisões delicadas e fundamentais; bem ou mal, ele aprende a improvisar, esta arte dos brasileiros e dos músicos de jazz.

Tudo isto para que, subitamente, no auge de sua capacidade e de sua criatividade, ele seja descartado como peça usada. Imprestável. Aniquilada. Exaurida. Fatigada (a fadiga dos metais, ainda que os mais nobres que existam). Ora, não poderia ele ao menos ser uma peça emprestável?

Bush, por exemplo, o impagável George W. O que será dele, de sua vasta vivência de oito anos, após o dia 20 de janeiro? Nada. Ele não vai ser nada. Vai presidir uma fundação com fins indefinidos que levará o seu nome e montar na gaveta do criado-mudo a Monumental Biblioteca Presidencial GWB. A gaveta ficará quase cheia com os livros que ele não leu.

Tanta habilidade e conhecimento jogados fora como descarte não reciclável!

Por tudo isso é que no próximo sábado, 13 de dezembro, nos 40 anos do AI-5, será lançada a ambiciosa Operação Bush Para O Bem Do Brasil - garoto de ouro, o ouro para o bem do Brasil, ele estará homenageando a grande cartada que o seu país "inspirou" aqui no recrudescimento da Revolução Redentora de 1964.

A Operação consiste em trazê-lo para cá, colocá-lo na nossa presidência e fazer tremer a sujar nas calças os titerezinhos da Venezuela, da Bolívia e do Paraguai, que deram para nos peitar e o Lula não teve a arrogância nem a impiedade para trucidá-los e aos seus povos. Bem feito, preparou bem preparados a sua cama e o trono do Bush.

Como não se faz guerra na própria fronteira, Bush-Brazil invadirá o Equador, num claro recado àquela mulherzinha socialista do Chile, e romperá o bloqueio a Cuba inundando a ilha dos Castro com mariners de tez mulata.

Sua posse, aqui, se dará a 1o de abril próximo, data condigna da sua personalidade, nos 45 anos do golpe militar que nos salvou do vermelho - agora eu tenho crédito no cartão e saldo (negativo) no cheque especial.

Amilcar Neves, escritor.
Crônica publicada
na edição de hoje, 10.12.2008,
do Diário Catarinense.
Reprodução autorizada pelo autor
.



Blog Comunidades
Confira outra crônica de Amilcar Neves no blog Comunidades, abrigado na página da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), administrado pela professora Lélia Pereira da Silva Nunes, a partir de Florianópolis (Brasil), e a açoriana Irene Maria F. Blayer, desde Ontário (Canadá). O espaço é dedicado aos diversos olhares que se podem lançar sobre o Arquipélago dos Açores, na tentativa de compreender o processo da diáspora açoriana e de ampliar a voz do povo das ilhas. Além da crônica intitulada Portugal na Nova Inglaterra, acompanhe a apresentação do autor feita professora Lélia.

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