13 de mai de 2009

Uma cidade galega?


Por Amílcar Neves*

Ensinam os dicionários que a palavra galego refere-se à Galiza, região da Espanha na fronteira Norte de Portugal, a seus habitantes ou à língua que eles falam, muito próxima do Português. Apontam ainda que no Nordeste do Brasil e em Santa Catarina o termo é usado pejorativamente para designar qualquer estrangeiro, em especial aqueles que falam línguas incompreensíveis, no que corresponderia ao famoso gringo que os espanhóis criaram a partir de griego ou grego: "Estou falando grego com vocês?"

Mas galego também é um regionalismo do Nordeste, agora não depreciativo, usado para denominar qualquer indivíduo louro. Por algum insondável motivo, os dicionários esquecem de aludir ao fato de que este sentido do vocábulo é corrente em Santa Catarina, e muitas vezes qualifica os seus habitantes: os galegos de Blumenau, por exemplo.

Como o germânico Verde Vale do Itajaí foi abundantemente conhecido em todo o Brasil muitíssimo antes de as pessoas sequer saberem pronunciar a palavra Florianópolis ou desconfiarem onde ficaria aquela cidade com um nome tão esquisito, complicado e de mau gosto, todo catarinense automaticamente virou louro e, pela colonização alemã de boa parte do Estado, passou a ser galego.

Por isso, certa vez, no Rio de Janeiro, um amigo ilustrado ficou indignado: "Como assim? Vocês não têm negros no Estado! Negros temos nós aqui e tem a Bahia, nunca Santa Catarina! Já estive lá e é muito raro cruzar por um negro nas ruas da Capital ou outra cidade. Vocês são todos europeus, não me venha agora com essa! Vocês pretendem então discutir democracia racial? Nem escravos vocês tiveram lá!"

Para gente como o amigo carioca, Cruz e Sousa foi uma excrescência, um ponto fora da curva, uma aberração, talvez uma importação descuidada, algo como um vírus de gripe que se introduziu na região burlando os controles, vazando as barreiras, desconsiderando os avisos de não se aproximar.

Esta cidade galega, capital de um estado galego, tem agora uma grande oportunidade de se reconciliar com a realidade das suas ruas e da sua população: o imperdível documentário Maciço, dirigido com alta competência por Pedro MC, mostra que só nas encostas do Morro da Cruz, encravado bem no meio da cidade, moram 30 mil pessoas - mais do que a população de muito município brasileiro -, a quase totalidade das quais formada por gente orgulhosamente negra.


*Amilcar Neves, escritor. Crônica publicada na edição de hoje (13.5) do jornal Diário Catarinense. Reprodução autorizada pelo autor.

Ilustração: Gallo Sépia.

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