11 de mai de 2009

Da série: Filosofia do Ralo da Pia

A Gripe e a Economia


Por Raul Longo*

O Bourdoukan, o Georges Bourdoukan, escreveu contando boas novas do O Capitão Mouro. Claro que seria indiscrição adiantar aqui a notícia, mas, talvez embalado pelo entusiasmo, surgiu a idéia de assar umas esfirras.

Farinha, leite, sal, óleo. Pitadinha de açúcar e fermento. Amassa, misturando tudo, e tempera os recheios. Tradicional é o de carne moída, mas dá pra inventar: ricota, escarola, ou o que o bom senso sugerir. Abre a massa, corta os pedaços para moldar as trouxinhas a serem recheadas: abertas e fechadas. Pôr na forma, a forma no forno quente e, uns quinze minutos depois, é só saborear.

Comesse com as mãos, não requer pratos nem talheres. “- Tem dedo pra quê?” – perguntava a cafuza Balbina que, lá nos sertões, me ensinou que esse negócio de talheres é complicação absurda e desnecessária, inventada pelos brancos. Como nem tudo é perfeito, ficam para lavar as incômodas formas de alumínio, maiores do que a pia.

Já que estou lá areando, não custa ouvir um pouco da TV: Miriam Leitão entrevistando o Henrique Meirelles. Olhei aquilo com enfadonho rabo de olho, já reclamando por não entender nada de economia. Devo ter pensado alto, mas até aí nenhuma anormalidade, pois contasse que o Carl Jung também conversava com suas panelas. O que assustou mesmo e me fez pensar na necessidade de consultar um discípulo do Jung, foi ouvir com muita nitidez a forma de assar responder: “- A Miriam também não.”

Olhei pra TV, olhei pra forma, voltei pra TV. Mas não... Não fora a voz empoada do Meirelles. Seria a Miriam Leitão se referindo a si na terceira pessoa? Duvidei, porque apesar da voz maníaca depressiva da Miriam, também não se pode dizer que se assemelhe ao arranhado de alumínio! Chia um pouco, é verdade, mas compará-la a um guincho chega a ser exagero.

Fora a forma. Deve ter escorregado no liso da pedra da pia e, em minha má vontade com a função, transferi antipatias para as ciências econômicas.

O olho do ralo da pia, só ali: estático, me observando!

Desviei a atenção para a TV e a Mirian, aparentando gozar plena sanidade, pergunta das certezas do Meirelles de que o aumento de zero vírgula algo por cento, não evidencia sinal do retorno da inflação.

Atentei à resposta do entrevistado, esquecendo-me no esfregar autômato da palha de aço, mas quando ele ia embalando, a Leitão interrompe refazendo a mesma pergunta. O Presidente do Banco Central olhou meio preocupado, ainda que não tanto quanto eu comigo mesmo, pelo delírio com a forma falante.

Meirelles tentou reengatar novamente a explicação, mas quando já me dava impressão de que daquela vez eu chegaria a entender alguma coisa, novamente a Miriam refez a pergunta, se referindo as medidas do Banco Centrex quanto às taxas de juros.

O Meirelles olhou sério e eu pensei ter ouvido mal, mas antes que o economista ousasse responder, Leitão repetiu bem audível: Banco Centrex. Piorou! Primeiro a forma que fala, e depois a fala da especialista parecendo errar propositalmente. Sem dúvida, alguém estava ficando doido ali, e só poderia ser eu mesmo que não sou analista de coisa alguma.

Nem me arrisquei a encarar o olho do buraco da pia! Fiz-me despercebido naquele esfregar alienado e distante, mas no quarto ou quinto interromper com o mesmo Centrex, o Meirelles começou a rir. Aliviado, me convenci ser proposital. Ela perguntava, ele iniciava a resposta e quando a jornalista o impedia, Meirelles ria. Fazer o quê?

Não confessei pra assadeira, com medo de algum novo palpite atravessado, mas a verdade é que o jeitão do Henrique Meirelles nunca me foi muito simpático. No entanto, fez lembrar que entrevistei personalidades bem menos simpáticas. Até mesmo desprezíveis, como o Paulo Maluf ou quando tive de colher depoimentos de um torturador. Negou tudo, eu lembro, mas fora o torturador de alguns amigos meus.

Evidente que jamais me senti na obrigação de externar qualquer gesto de simpatia, sequer um sorriso, mas jamais, de forma alguma, me passou pela cabeça ironizar alguém que me concedesse uma entrevista. Fiz muitas perguntas incômodas, refutei mentiras contra-argumentando com provas de informações verdadeiras, mas ofender o entrevistado, ironizar, não era sequer comprovação de falta de profissionalismo. Era falta de senso e educação, mesmo.

Houve quem interrompesse entrevista me dando às costas, indisposto com meus questionamentos. Mas jamais ridicularizei um entrevistado perante um gravador. Nunca trabalhei frente às câmaras, assim mesmo, por mínimo senso, imagino que se deva idêntico respeito a quem dispõe de seu tempo para que o jornalista realize seu trabalho.

A impaciência da Leitão raiou a histeria. Parecia uma pretendente preterida, se vingando de um Meirelles que não conseguia completar nenhuma frase entre perguntas que se superpunham nervosamente. Ou melhor, não se superpunham, se repetiam. Antes que completasse outra frase, ao retomar a tentativa, era arrostado por nova pergunta. Saraivada de questões redundantes e meio pueris, até pra mim que nada entendo de economia, evidenciando não pretender nem aceitar explicações, ainda menos esperar que o entrevistado tivesse algo de crível ou aproveitável a dizer.

“- Então, para que o convidaram ao programa?” Já não sei se a observação foi minha ou da assadeira, mas continha tanta lógica que nem importei mais. Ao final as coisas pareceram retomar alguma normalidade porque, talvez intimidada pelo sorriso do Meirelles, a Miriam Leitão ao menos parou de chamar o banco de Centrex.

Provavelmente houvesse alguma razão pessoal para a ironia, mas não ficou claro qual fosse nem para mim nem pra forma de assar.

Ainda menos para o Meirelles que apenas sorria com cara de quem está querendo entender entre o acaso e o intencional, a normalidade e a demência. Não sei se a assadeira reparou, mas se não medo, parecia provar daqueles receios de visita recebida e cheirada por cachorro pequinês. Pequeno, de focinho chato, mas vai que morde e não é vacinado!

Enfim, de positivo daquilo tudo, apesar da jornalista não permitir que eu entendesse absolutamente nada, restou que, ao terminar com o serviço, eu até já desenvolvera alguma simpatia pela assadeira de alumínio e, confesso, fui obrigado a reconhecer no Henrique Meirelles um tipo elegante, cavalheiro e, sobretudo, extremamente paciente.

Ia quase me esquecendo da inútil entrevista quando recebo do ex-Ministro da Saúde, José Serra, a informação de que a melhor medida para se evitar a Gripe Suína é não ter contato com os porquinhos. Pois alguém precisa alertar que se deve monitorar o Presidente do Banco Central! Segundo o Serra, se além de grunhir o leitão espirrou, pode encaminhar pro isolamento.

Os mouros do Bourdoukan é que tinham razão em sempre considerar porcos, leitões e todos os suínos como bichos impuros!

Raul Longo
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Ilustração: Gallo Sépia

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