3 de mai de 2009

Paz e guerra


Por Amílcar Neves*

Arrumaram as coisas de tal modo que até um feriado foi inserido na sexta-feira, ampliando o final de semana da decisão. Com isto, alongou-se consideravelmente o tempo que todo avaiano - e isto é muita gente, mais da metade da população da cidade, mais da metade dos habitantes da região - teve para dedicar-se com exclusividade ao jogo, para concentrar-se no desenho da partida, para antecipar cada detalhe da batalha final pelo título. Livre de trabalho, escola, contas a pagar e preocupações imediatas com o saldo bancário, o povo azurra pôde entregar-se em período integral ao gratificante esporte de dar força ao time, de transmitir energia aos atletas, de acreditar, de confiar. Tudo isso contra um cenário de céu azul, mar azul, Ressacada azul, ilha azulíssima... Mesmo com tempo fechado, mesmo no meio da madrugada mais escura, sabe-se afinal que tudo isso é inapelavelmente azul.

Mas há algo mais que se cristaliza em torno dessa final de 120 minutos entre Avaí e Chapecoense, este valoroso vice-campeão do futebol catarinense neste ano da graça de 2009. Os dois clubes, as duas cidades, as duas torcidas mostram - e isto já vem de jogos anteriores, não é arranjo de última hora para impressionar desavisados - que a batalha se dá exclusivamente dentro de campo: onze contra onze no gramado, defendendo as cores que inundam as arquibancadas. Antes do jogo, os torcedores azuis e os torcedores verdes festejam juntos, comem juntos, bebem juntos, tiram fotografias juntos. Abraçam-se, riem-se, provocam-se, fazem-se brincadeiras. Xingam-se durante a partida, gritam e cantam apoiando seu time, e depois seguem todos para seus destinos, cruzando bandeiras e camisetas pelas ruas sem maiores problemas, independente do resultado do jogo, aqui ou lá.

Ao ficarem cara a cara, ao conviverem por algumas horas ou mesmo por uns pares de minutos, os torcedores "oponentes" descobrem-se gente de carne e osso, seres humanos com nome, rosto, família, história - e não, figuras indistintas feito índios de faroeste que precisam ser aniquiladas (como se isto pudesse mudar o resultado da peleja). Chapecoense e Avaí conseguiram, subitamente, unir, aproximar, juntar o extremo-oeste com o extremo-leste de Santa Catarina - e mais a Leste do que a Capital somente a Namíbia. Lograram a façanha de integrar o Estado e, mais importante ainda, de mostrar que o esporte move multidões que espontaneamente passam procuração aos jogadores para representá-las com exclusividade no campo de batalha. Eles - que ganham para isso, enfim - é que têm que lutar, brigar, doar-se em busca do objetivo, do resultado, do título. Isto é o espetáculo.

Os torcedores da Chapecoense não ficarão aborrecidos pelo fato de o Avaí conquistar o título neste domingo. Afinal, reluzente como safira, somos a melhor equipe do campeonato. A partir da semana que vem, eles vão torcer pelo campeão na Série A. E nós estaremos torcendo por eles na Série D - a fim de que, no ano que vem, retornem à cidade para jogar no Estreito pelo Campeonato Nacional de 2010...

* Amilcar Neves, escritor. Cronica publicada na edição de 3.5.2009 do jornal Diário Catarinense. Reproduzida aqui com autorização do autor)

Imagem: Avainet

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