20 de jan de 2009

Ilha do Francês, do Inglês, do Argentino...


A grande Caça ao Lixo na Ilha do Francês, promovida pela Habitasul e pela ONG Ambiental Ratones (Projeto Mar Limpo), em outubro de 2000, chamou a atenção da cidade para um pedacinho de terra próximo à praia (600 metros), um tanto esquecido: a Ilha do Francês.

Uma bela representação da vegetação da região formada predominantemente pela Mata Atlântica, a Ilha do Francês localiza-se ao Norte de Florianópolis, no lado direito da praia de Jurerê Internacional. Costões de pedra, mata verde e uma pequena enseada com praia compõem seus 67 mil m2, verdadeiro retiro de fauna aquática e aves.

Atualmente, a Ilha não está incluída nos passeios turísticos das escunas, como as ilhas de Anhatomirim e Ratones (famosas pelos seus fortes), administradas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas é acessível até por jet-ski.

Toda a história da Ilha do Francês revela fragmentos da história de Florianópolis e pode ser contada através das sucessivas trocas de proprietários (ocupantes), desde 1884 – data do primeiro registro de ocupação, encontrado na Delegacia do Patrimônio da União em Santa Catarina.

Na época era chamada apenas de Ilhota e o porto da Igreja Matriz da Freguesia de São Francisco de Paula (há versões em que se chama São Francisco de Assis) de Canasvieiras era seu principal ponto de referência.

Sobre a origem do nome que consta nas cartas náuticas hoje – Ilha do Francês – não há documentos. Num artigo publicado numa revista local, o jovem remador ilhéu Celso Perrone (morto aos 33 anos, em 1949) menciona:

“...dizem que seu nome, como é fácil de deduzir, proveio do fato de ter sido habitada há cerca de um século por um veterano da Grand Armée de Napoleão Bonaparte e que emigrara após a derrota de Waterloo.”

Em 1900, o escritor catarinense Virgílio Várzea (1863-1941), nascido na freguesia de São Francisco de Paula de Canasvieiras, abandonou a linguagem descritiva que usou para descrever as ilhas adjacentes à Ilha de Santa Catarina (no seu livro “Santa Catarina, a Ilha”) e deixou-se levar pela poesia e mitos gregos para descrever a do Francês:

“...cerca de 600 metros ao mar da ponta de São Francisco, alteia-se a ilhota dos Franceses, ou simplesmente a Ilhota, como aí a denominam vulgarmente. De uma paisagem encantadora e cercada de altos rochedos, dispostos com suprema arte pela natureza, rochedos que se alongam como aríetes estranhos sobre as ondas tocadas de espuma – a ilhota dir-se-ia um desses pequeninos torrões do arquipélago odisseu, onde deusas e ninfas olímpicas viviam, em tempos lendários...”

A Ilha do Francês é conhecida por muitos outros nomes – sempre de acordo com seus ocupantes. Já foi Ilha do Inglês, do Ignácio, Ilha do Alemão e atualmente também é chamada de Ilha do Argentino. Desde 1884 é de propriedade particular – excluída a orla, por determinação legal.

Em 1894, metade da Ilha, com uma casa e muitas árvores frutíferas segundo consta em escritura de venda arquivada no Patrimônio da União, foi vendida a João Ignácio Schroeder. Encantado com a profusão de orquídeas selvagens, Ignácio tratou de montar um orquidário.

Em 1916, o inglês John Williamson – que, supostamente, veio à cidade instalar a luz elétrica – comprou a ilha de Schroeder e ali instalou a sua oficina. O artigo de Perrone, antes citado, é justamente sobre uma visita ao inglês, que o descreve como um “perfeito gentleman, ao qual um já longo retiro de mais de dez anos não conseguira deslustrar”.

Após a morte de Williamson, em 1938, a posse foi para as mãos de Antônio Muniz Barreto, argentino de origem brasileira. Muniz Barreto foi o responsável pelo auge da beleza da Ilha do Francês, incrementando o orquidário e criando jardins com flores raras, importadas de todo o mundo. Entre elas, a orquídea elegante, uma variedade totalmente branca.

Segundo contam os moradores mais antigos de Canasvieiras, o argentino era um milionário apaixonado pela Ilha, queria morrer e ser enterrado lá. Vinha só para passar as férias, mas carregava consigo todo um aparato – mordomo, copeira, empregados, etc. Quando Muniz Barreto envelheceu e adoeceu, os filhos não o trouxeram mais para o local. Um dos ex-empregados do argentino, José Xavier de Brito, conta que, um pouco antes de ele morrer, os filhos acabaram realizando o seu desejo de voltar, e ele chorou como criança, quando desceu na praia. Seu Zeca, como é chamado, ainda se emociona ao lembrar da beleza da Ilha e da quantidade de peixes.

Hoje a Ilha do Francês pertence aos netos do argentino, mas eles só ficam na casa, por causa do movimento na praia em frente, que é Canasvieiras.

(Texto: Celso Nunes, encaminhado por Zeca Píres ao Sambaqui na rede)

Um comentário:

  1. Celso, em um mapa do século XVIII que consta na página 102 do livro Ilha de Santa Catarina - 1777-1778 - A invasão espanhola, de João Carlos Mosimann a Ilha do Francês aparece com o nome de I. dos Papagaios.

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