31 de jan de 2009

Audácia, o documentário
Operação Barriga Verde na tela
Investida da ditadura levou 42 catarinenses à prisão
em 1975, acusados de tentar reorganizar o PCB.


- Aqui é o Francisco Pereira, filho do Chico Pereira, disse uma voz ao telefone.
- Pois não!
- Estou fazendo um documentário que fala da Operação Barriga Verde e gostaria de falar contigo, explicou.
Alguns dias depois ele apareceu se apresentando como Francisco.
- Francisco? Mas as pessoas te chamam de Francisco ou de Chico?
- Chico, pode ser...
E foi assim que conheci o cineasta Chico Pereira, mesmo nome e apelido do pai, o escritor, contista de mão-cheia, dono da editora Garapuvu, ex-militante do PCB, preso em 1964, exilado. O filho, acompanhado da mãe e dos irmãos, viveu em diversos continentes até o retorno da família ao Brasil depois da anistia em 1979.
A partir desse primeiro contato pude conhecer melhor o filho do velho Chico que residia em São Paulo e de quem apenas ouvira falar. Dotado de grande perspicácia, atento, do tipo que sabe ouvir (e ouve), despido de preconceitos (pelo menos aqueles mais berrantes e vulgares, não os incrustados na visão de mundo ocidental judaico-cristã) e movido por uma enorme força de vontade de fazer as coisas. É também cuidadoso, meticuloso, sempre elaborando coisas, raciocinando, numa permanente ruminância mental, próprio dos que não estão nesse mundo apenas para encher a barriga. [Não existe a expressão ruminância, ainda mais com circunflexo, mas vocês sabem do que estou falando né!]
O interesse do Chico Pereira se devia ao meu livro “Os quatro cantos do Sol: Operação Barriga Verde” (Florianópolis: EdUFSC; Editora Boiteux, 2007). Ele descobrira o trabalho depois de tomar conhecimento, numa obra do escritor Edmundo Bastos Júnior, dos fatos ocorridos com o capitão PM Nelson Coelho. “Vou centrar o documentário na Colônia Penal Agrícola de Canasvieiras. Não é um documentário sobre a história da Operação”, disse. O referido capitão, encarregado da Colônia Penal onde estavam alguns dos 42 presos da Operação Barriga Verde, acabou respondendo um IPM sob a acusação de dar muita liberdade aos presos.
É isso mesmo. Eu fui um dos que esteve em visita à Colônia Penal de Canasvieiras. Fui visitar meu antigo professor de Física do Colégio da Aplicação da UFSC, o falecido Marcos Cardoso Filho, grande amigo, assim como Cirineu Martins (esse Martins é o mesmo meu) Cardoso, grande poeta, e Alécio Verzola, sobrevivente daqueles tempos e meu vizinho aqui no Sambaqui. Numa dessas visitas pude saborear um porco assado no rolete, inteiro, trazido de Criciúma por parentes do também falecido Jorge Feliciano (que Deus o tenha!). Em outra ocasião, acompanhei Cirineu e Alécio, desde a Colônia, até um armazém na praia de Canasvieiras, onde compramos... Bem, compramos umas garrafas de cachaça, açúcar e limão.
Na Colônia era mais ou menos assim. Os policiais militares que faziam a guarda sabiam que estavam tratando com presos políticos, muitos deles seus conhecidos ou conhecidos em toda a cidade. Os detidos aguardavam a sentença de uma hora para outra, avaliando que a fuga não valia a pena. Desse modo, a guarda relaxou e os presos trataram de tirar o melhor proveito possível das circunstâncias. Numa noite, um oficial do serviço secreto da PM fez uma incerta, como se diz: apareceu repentinamente na Colônia e reparou a falta de dois ou três que não estavam em suas celas – na verdade no alojamento.
Isso levou à prisão do capitão Coelho e seu indiciamento. “Devido à falta de relações sexuais eles estavam com dores nos testículos, por isso deixei que fossem passar a noite em suas casas”, justificou mais ou menos assim no IPM o oficial, conforme me relatou numa conversa o coronel Edmundo Bastos Júnior. São aspectos como esses e os dramas pessoais dos presos que estão sendo tratados no documentário.
O passo seguinte do Chico Pereira (filho) foi me chamar para atuar como uma espécie de consultor (ele deu um nome pomposo, não recordo qual, para a tarefa). Dessa forma, passamos a ter contatos diários, pessoalmente, por telefone ou e-mail, discutindo as fontes, cenários para as locações, enfoques e até mesmo os profissionais a ser mobilizados. Edson Luis (Velho Bruxo), Marcelo Dias e outros foram aparecendo, como o repórter-cinematográfico Marco Antônio Nascimento, que assumiu a direção de fotografia.
As gravações ocorreram no início desse mês de janeiro, realizadas sobretudo na fortaleza de São José da Ponta Grossa e numa residência feita com materiais reciclados no Canto do Moreira (Ratones) e outros locais. Ao todo foram entrevistados 35 pessoas, ex-presos, parentes, amigos e também o lado oficial: carceireiros e policiais. As 30 horas de gravações começam agora a ser trabalhadas rumo ao produto final – um documentário de 52 minutos cujos detalhes podem ser conferidos no blog Audácia. Independente de qual seja o resultado, ficou o saldo de uma sincera amizade, o respeito mútuo e um horizonte de realizações conjuntas.

Mais detalhes no blog Audácia.


Fortaleza de São José da Ponta Grossa (Florianópolis-SC),
um dos cenários usados no documentário Audácia.

Marco Nascimento.

Francisco e Marco. No fundo Velho Bruxo (Edson Luís).

Marcelo, Velho Bruxo e Marco.

Marcelo (produtor) e Marco.

Marcelo e Velho Bruxo.

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