3 de dez. de 2008

Sol volta a colorir o céu de Sambaqui


Sambaqui (Florianópolis-SC), final do dia 3 de dezembro de 2008.

As fendas da Costa de Dentro de Cima

Caseiro Sidnei notou o desnível no calçamento
da propriedade dos Martins e comunicou a família.


O coordenador da Defesa Civil de Florianópolis, Charles Schnorr, confirmou há pouco a retirada de 14 famílias residentes na servidão Caminho dos Cafezais, na localidade da Costa de Dentro de Cima (Pântano do Sul), devido o aparecimento de fendas no solo. O problema foi localizado no último dia 23.11 pelo recepcionista e caseiro Sidnei Mafra, 28 anos, um dos deslocados. Sidnei que trabalha na propriedade da família Martins, onde apareceram as fissuras, comunicou o fato a Rafael Martins, que procurou o geólogo Rodrigo Sato.
Antes de viajar para a China, Sato elaborou um laudo sobre as fendas. Com base nesse documento apresentado à Defesa Civil de Florianópolis, foi solicitado o auxílio de dois professores de Geologia da Udesc, Maria Paula Casagrande Marimon e Luiz Henrique Fragoas Pimenta. "Eles estão monitorando a área e devem apresentar um laudo definitivo. Que existem problemas está evidente. Pode acontecer alguma coisa agora ou em 40 anos ou mais, o certo é que o perigo existe", salienta Charles Schnorr.
Das 14 famílias que deixaram suas casas a partir de terça-feira da semana passada, dia 25, algumas já retornaram. As demais permancem improvisadas nas casas de familiares. A área atingida fica no sul da Ilha de Santa Catarina, distante cerca de 31 quilômetro do Centro de Florianópolis. A comunidade é composta por cerca de 40 famílias.


Localização do morro da Costa de Dentro de Cima, no Pântano do Sul,
distante 31 quilômetros do Centro de Florianópolis.



Início da servidão Caminho dos Cafezais
onde apareceram as fissuras no solo.


Fundos de uma residência na parte de baixo
do terreno dos Martins. A família deixou a casa.


Detalhes das fendas no imóvel da família Martins.

Rafael Martins, dono do imóvel onde apareceram as fissuras. "Estamos preocupados com as famílias que não têm para onde ir". Ele aguarda o laudo definitivo para decidir com a família o destino da propriedade.

Navegar em terras profundas

Foto: Wilson Dias/ABr

Amilcar Neves (*)

Temos que aprender novas matérias, cultivar novas habilidades, nos adaptar a novas situações. Da mesma forma como um dia aprendemos a navegar em águas profundas, assim também precisamos rever nossos conceitos sobre segurança e estabilidade para sobreviver em um mundo sob mutação física acelerada.

Os antigos marujos oravam agradecidos e aliviados ao atingir o que chamavam de "terra firme", em oposição ao elemento líquido sobre o qual exerciam uma tênue busca de equilíbrio para se manter à tona. Após muitos naufrágios, o mundo acabou se alargando - para o bem e para o mal. Apesar disso, navios nunca deixaram de ir a pique, seja por causas naturais, por incompetência e irresponsabilidade ou por ação direta do homem.

Poucas coisas haverá mais firmes do que uma rocha de 80 metros cúbicos pesando duas mil toneladas. Sobre ela construirás a tua Igreja - até que, após milhares de anos na mesma e "eterna" posição, ela se desloca no Morro dos Cavalos e cai sobre a estrada, fechando-a por completo: debaixo do enorme bloco de granito havia terra, a "terra firme" dos argonautas, que se fez fluida como pudim em cinco meses de chuvas ininterruptas.

Sozinha, sem apoios, a rocha não valia nada apesar de aparentar robustez e estabilidade. Hoje ela jaz desfeita em incontáveis fragmentos, condição única para afastá-la do caminho do "progresso", pelo qual têm pressa de passar nossos carros e caminhões.

Pensa-se que, no Brasil (uma das nossas vantagens sobre outros povos), não temos vulcões, esse terror das terras inóspitas. Talvez isto não seja propriamente verdadeiro, dada a quantidade de lavas frias que se desprendem do alto dos morros em Santa Catarina neste período de desgraças que se abatem sobre o Estado. Pior ainda aqui, pois a erupção não se anuncia com antecedência por sinais geológicos que podem ser captados, interpretados e traduzidos em alerta às populações envolvidas. Não: aqui, de repente, a montanha - qualquer montanha, não apenas aquela que abriga um vulcão - simplesmente desce ladeira abaixo, deixando um rastro de dor, morte e muita destruição.

Precisamos aprender que o solo não é firme nem sólido e descobrir maneiras de navegar em terras profundas, pastosas como mingau, enquanto nos perguntamos: e essas barragens todas por aí, hem?, estão ancoradas sobre quais bases? Sobre rochas de duas mil toneladas, talvez?

(*) Amilcar Neves, escritor. DC, 3.12.2008.
Reprodução autorizada pelo autor.

Personagens e cenas de Sambaqui













2 de dez. de 2008

As enchentes e o Código Ambiental de SC (4)

Parlamentares sobrevoaram hoje as áreas das cheias.
Foto: Carlos Kilian
/Alesc



A discussão do Código Ambiental dominou a sessão de hoje (2.12.2008) da Assembléia Legislativa (SC). Alguns parlamentares pediram o adiamento da votação da matéria. Os trabalhos chegaram a ser suspensos para que a professora da FURB e secretaria executiva do Comitê de Bacia do Rio do Itajaí, Beate Frank, entregasse um abaixo-assinado com 2,5 mil adesões. Foi “uma estranha coincidência que a tragédia catarinense tenha ocorrido na semana em que a Assembléia concluiu as audiências públicas sobre o Código, uma lei que é resultado da pressão de fazendeiros, fábricas de celulose, empreiteiros e outros interesses, apoiados na justa preocupação de pequenos agricultores que dispõem de pequenas extensões de terra para plantio”, disse.

A prisão de Adelino, agricultor que resistiu

Vista aérea do Morro do Baú, em Ilhota-SC,
área de risco de onde algumas pessoas se recusam a sair.
Foto: Wilson Dias/Abr



"Com a camisa xadrez rasgada e o cabelo desgrenhado, o agricultor Adelino Bachmann ainda exibe as marcas das algemas nos pulsos. O olhar parece perdido, de alguém que passou a madrugada acordado em uma sala da Delegacia da Polícia Civil de Luiz Alves, uma das cidades mais atingidas pelas chuvas", diz a matéria postada no site no jornal O Estado de São Paulo. "Para deixar área de risco, agricultor é algemado. Adelino não queria, por nada, deixar sua casa, onde mora há 30 anos". O texto é assinado pelos repórteres Rodrigo Brancatelli e Luiz Alves. Juristas comentam a prisão.



As enchentes e o Código Ambiental de SC (3)

Cena da enchente no vale do rio Itajaí:
o colchão virou jangada e os remos são vassouras.
Foto enviada por Ivone G. Ventura (Blumenau)
a Marize Lippel (Florianópolis), sem autoria definida.



A revista eletrônica Envolverde repercute a campanha contra o Código Ambiental do Estado, que pode tornar menos restritiva a atual legislação ambiental. Em sua última edição, a revista reproduz o manifesto de professores e pesquisadores de instituições de ensino do Estado: Beate Frank (FURB, Projeto Piava), Antonio Fernando S. Guerra (UNIVALI), Edna Lindaura Luiz (UNESC), Gilberto Valente Canali (Ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos), Hector Leis (UFSC), João Guilherme Wegner da Cunha (CREA/CONSEMA), Juarês Aumond (FURB), Julio Cezar Refosco (FURB), Lino Fernando Bragança Peres (UFSC), Lúcia Sevegnani (FURB), Luciano Florit (FURB), Luiz Fernando P. Sales (UNIVALI), Luiz Fernando Scheibe (UFSC), Marcus Polette (UNIVALI), Noemia Bohn (FURB), Núcleo de Estudos em Serviço Social e Organização Popular - NESSOP (UFSC), Sandra Momm Schult (FURB) e a Equipe do Projeto Piava (Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí).

"As imagens de morros caindo, de desespero e morte, de casas, animais e automóveis sendo tragados por lama e água, vivenciadas por centenas de milhares de pessoas no Vale do Itajaí e Litoral Norte Catarinense nos últimos dias, são distintas, e muito mais graves, das experiências de enchentes que temos na memória, de 1983 e 1984. Por que tudo aconteceu de forma tão diferente e tão trágica? Será que a culpa foi só da chuva, como citam as manchetes? Nossa intenção não é apontar culpados, mas mencionar alguns fatos para reflexão, para tentar encaminhar soluções mais sábias e duradouras, e evitar mais e maiores problemas futuros." Leia a íntegra do documento.

A resistência dos flagelados (3)

Os professores Luiz Felipe Falcão e Reinaldo Lohn, do curso de História da Udesc, entram no debate sobre a obstinada resistência dos flagelados em deixar suas casas nas áreas de risco.


"Caro Celso,
em alguns aspectos, é impossível não lembrar que, para certas pessoas, a ligação com sua terra (no caso específico daquelas pessoas do interior da região e com ligações com a agricultura familiar) é mais do que uma questão contratual. É questão de sobrevivência. Há componentes culturais que talvez sirvam para entender isso. Ter a própria terra e tomá-la como garantia de sobrevivência futura (os dias vindouros são sempre incertos para quem está no limite...) é um dos diferenciais mais marcantes presentes nas observações de antropólogos e historiadores acerca de comunidades camponesas ou de "colonos", como os nossos do interior de Santa Catarina.

Por outro lado, para as populações urbanas, habitantes de áreas de risco, parece haver o medo de que sua condição instável possa ser agravada por ações do Estado que venham a "aproveitar" o contexto da tragédia para promover certas assepcias sociais. Em nome de mobilizações sociais, já foram condenadas, em vários momentos históricos diferentes, as habitações populares e
moradias precárias em diversas cidades brasileiras. Não custa lembrar que foi depois de uma grande enchente no Rio de Janeiro que o então governador Carlos Lacerda ganhou legitimidade para seu programa de erradicação de favelas em meados da década de 1960, levando pânico às populações dos morros cariocas e criando grandes conglomerados de habitação social em áreas distantes e sem melhores condições sociais (vide a Cidade de Deus).
Abraço".

(Reinaldo Lohn)

"Celso:

Algumas idéias:

Para uma análise minimamente consistente sobre a insistência das pessoas em permanecer em áreas de risco, a primeira coisa que se precisa saber e se elas são habitantes de área urbana ou rural, e em seguida qual e a faixa etária, a inclinação religiosa e mesmo a composição do grupo familiar, caso exista. Isso porque, para alem da constatação de que ninguém abandona de bom grado suas coisas e seu espaço, existem sociabilidades diferentes a considerar, com implicações nada desprezíveis.

Começando pelos habitantes de áreas urbanas, o problema inicial esta em que residências abandonadas são alvos preferenciais para saques e mesmo para alojamento provisório de marginais, o que qualquer um tenta evitar. Mais ainda, em geral a residência significou um investimento financeiro importante e, por vezes, ainda não totalmente quitado, e abandonar a casa representa abrir mão de parte substantiva de um patrimônio conquistado com muito esforço. Por outro lado, existe sempre a possibilidade dos especialistas e das autoridades estarem erradas, do risco não ser tão grande e, sobretudo, da experiência adquirida indicar que em outras épocas chuvosas não aconteceram estragos maiores.

De sua parte, os habitantes de áreas rurais compartilhariam com os habitantes de áreas urbanas desse ultimo pensamento e sentimento, acentuando ainda que, entre eles, existe como que uma espécie de insistência (populações urbanas chamariam isso de "teimosia") na manutenção de praticas rotineiras que se mostraram relevantes com o passar do tempo, o que neste particular acarretaria uma grande resistência a qualquer tipo de mudança brusca e/ou definitiva em suas formas de vida. Alem disso, dependendo da formação e da experiência religiosa, uma calamidade pode ser lida como uma provação por parte do deus, e desafia-lo só traria mais desgraça, acrescida agora de punição pelo desrespeito cometido pelo fiel (embora menos comum, tal reflexão pode igualmente ser encontrada entre residentes de áreas urbanas).

Por fim, e para todos os casos, o componente etário pesa bastante: o que significa para uma pessoa idosa largar de vez um lugar que pode chamar de seu, como diria a musica, que foi difícil de adquirir ou que se habituou a vivenciar?

Espero que ajude. Um grande abraço".

(Luiz Felipe Falcão)