2 de dez. de 2008

As enchentes e o Código Ambiental de SC (4)

Parlamentares sobrevoaram hoje as áreas das cheias.
Foto: Carlos Kilian
/Alesc



A discussão do Código Ambiental dominou a sessão de hoje (2.12.2008) da Assembléia Legislativa (SC). Alguns parlamentares pediram o adiamento da votação da matéria. Os trabalhos chegaram a ser suspensos para que a professora da FURB e secretaria executiva do Comitê de Bacia do Rio do Itajaí, Beate Frank, entregasse um abaixo-assinado com 2,5 mil adesões. Foi “uma estranha coincidência que a tragédia catarinense tenha ocorrido na semana em que a Assembléia concluiu as audiências públicas sobre o Código, uma lei que é resultado da pressão de fazendeiros, fábricas de celulose, empreiteiros e outros interesses, apoiados na justa preocupação de pequenos agricultores que dispõem de pequenas extensões de terra para plantio”, disse.

A prisão de Adelino, agricultor que resistiu

Vista aérea do Morro do Baú, em Ilhota-SC,
área de risco de onde algumas pessoas se recusam a sair.
Foto: Wilson Dias/Abr



"Com a camisa xadrez rasgada e o cabelo desgrenhado, o agricultor Adelino Bachmann ainda exibe as marcas das algemas nos pulsos. O olhar parece perdido, de alguém que passou a madrugada acordado em uma sala da Delegacia da Polícia Civil de Luiz Alves, uma das cidades mais atingidas pelas chuvas", diz a matéria postada no site no jornal O Estado de São Paulo. "Para deixar área de risco, agricultor é algemado. Adelino não queria, por nada, deixar sua casa, onde mora há 30 anos". O texto é assinado pelos repórteres Rodrigo Brancatelli e Luiz Alves. Juristas comentam a prisão.



As enchentes e o Código Ambiental de SC (3)

Cena da enchente no vale do rio Itajaí:
o colchão virou jangada e os remos são vassouras.
Foto enviada por Ivone G. Ventura (Blumenau)
a Marize Lippel (Florianópolis), sem autoria definida.



A revista eletrônica Envolverde repercute a campanha contra o Código Ambiental do Estado, que pode tornar menos restritiva a atual legislação ambiental. Em sua última edição, a revista reproduz o manifesto de professores e pesquisadores de instituições de ensino do Estado: Beate Frank (FURB, Projeto Piava), Antonio Fernando S. Guerra (UNIVALI), Edna Lindaura Luiz (UNESC), Gilberto Valente Canali (Ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos), Hector Leis (UFSC), João Guilherme Wegner da Cunha (CREA/CONSEMA), Juarês Aumond (FURB), Julio Cezar Refosco (FURB), Lino Fernando Bragança Peres (UFSC), Lúcia Sevegnani (FURB), Luciano Florit (FURB), Luiz Fernando P. Sales (UNIVALI), Luiz Fernando Scheibe (UFSC), Marcus Polette (UNIVALI), Noemia Bohn (FURB), Núcleo de Estudos em Serviço Social e Organização Popular - NESSOP (UFSC), Sandra Momm Schult (FURB) e a Equipe do Projeto Piava (Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí).

"As imagens de morros caindo, de desespero e morte, de casas, animais e automóveis sendo tragados por lama e água, vivenciadas por centenas de milhares de pessoas no Vale do Itajaí e Litoral Norte Catarinense nos últimos dias, são distintas, e muito mais graves, das experiências de enchentes que temos na memória, de 1983 e 1984. Por que tudo aconteceu de forma tão diferente e tão trágica? Será que a culpa foi só da chuva, como citam as manchetes? Nossa intenção não é apontar culpados, mas mencionar alguns fatos para reflexão, para tentar encaminhar soluções mais sábias e duradouras, e evitar mais e maiores problemas futuros." Leia a íntegra do documento.

A resistência dos flagelados (3)

Os professores Luiz Felipe Falcão e Reinaldo Lohn, do curso de História da Udesc, entram no debate sobre a obstinada resistência dos flagelados em deixar suas casas nas áreas de risco.


"Caro Celso,
em alguns aspectos, é impossível não lembrar que, para certas pessoas, a ligação com sua terra (no caso específico daquelas pessoas do interior da região e com ligações com a agricultura familiar) é mais do que uma questão contratual. É questão de sobrevivência. Há componentes culturais que talvez sirvam para entender isso. Ter a própria terra e tomá-la como garantia de sobrevivência futura (os dias vindouros são sempre incertos para quem está no limite...) é um dos diferenciais mais marcantes presentes nas observações de antropólogos e historiadores acerca de comunidades camponesas ou de "colonos", como os nossos do interior de Santa Catarina.

Por outro lado, para as populações urbanas, habitantes de áreas de risco, parece haver o medo de que sua condição instável possa ser agravada por ações do Estado que venham a "aproveitar" o contexto da tragédia para promover certas assepcias sociais. Em nome de mobilizações sociais, já foram condenadas, em vários momentos históricos diferentes, as habitações populares e
moradias precárias em diversas cidades brasileiras. Não custa lembrar que foi depois de uma grande enchente no Rio de Janeiro que o então governador Carlos Lacerda ganhou legitimidade para seu programa de erradicação de favelas em meados da década de 1960, levando pânico às populações dos morros cariocas e criando grandes conglomerados de habitação social em áreas distantes e sem melhores condições sociais (vide a Cidade de Deus).
Abraço".

(Reinaldo Lohn)

"Celso:

Algumas idéias:

Para uma análise minimamente consistente sobre a insistência das pessoas em permanecer em áreas de risco, a primeira coisa que se precisa saber e se elas são habitantes de área urbana ou rural, e em seguida qual e a faixa etária, a inclinação religiosa e mesmo a composição do grupo familiar, caso exista. Isso porque, para alem da constatação de que ninguém abandona de bom grado suas coisas e seu espaço, existem sociabilidades diferentes a considerar, com implicações nada desprezíveis.

Começando pelos habitantes de áreas urbanas, o problema inicial esta em que residências abandonadas são alvos preferenciais para saques e mesmo para alojamento provisório de marginais, o que qualquer um tenta evitar. Mais ainda, em geral a residência significou um investimento financeiro importante e, por vezes, ainda não totalmente quitado, e abandonar a casa representa abrir mão de parte substantiva de um patrimônio conquistado com muito esforço. Por outro lado, existe sempre a possibilidade dos especialistas e das autoridades estarem erradas, do risco não ser tão grande e, sobretudo, da experiência adquirida indicar que em outras épocas chuvosas não aconteceram estragos maiores.

De sua parte, os habitantes de áreas rurais compartilhariam com os habitantes de áreas urbanas desse ultimo pensamento e sentimento, acentuando ainda que, entre eles, existe como que uma espécie de insistência (populações urbanas chamariam isso de "teimosia") na manutenção de praticas rotineiras que se mostraram relevantes com o passar do tempo, o que neste particular acarretaria uma grande resistência a qualquer tipo de mudança brusca e/ou definitiva em suas formas de vida. Alem disso, dependendo da formação e da experiência religiosa, uma calamidade pode ser lida como uma provação por parte do deus, e desafia-lo só traria mais desgraça, acrescida agora de punição pelo desrespeito cometido pelo fiel (embora menos comum, tal reflexão pode igualmente ser encontrada entre residentes de áreas urbanas).

Por fim, e para todos os casos, o componente etário pesa bastante: o que significa para uma pessoa idosa largar de vez um lugar que pode chamar de seu, como diria a musica, que foi difícil de adquirir ou que se habituou a vivenciar?

Espero que ajude. Um grande abraço".

(Luiz Felipe Falcão)

Tensão e solidariedade em Santo Amaro

Voluntáriado em atividade. Foto: Sílvio Knabben.

Detalhe do rio Cubatão (7.10.2007).


O desvio do trânsito da BR-282 pela rua Pedro Nerí Schinden, na localidade de Vargem dos Pinheiros, em Santo Amaro da Imperatriz, está provocando rachaduras nas casas. Além disso, o secretário municipal da Indústria, Comércio e Turismo e integrante da Defesa Civil local, Luiz Gonzaga dos Santos, acaba de alertar para o perigo de represamento do rio Cubatão, devido ao intenso movimento de veículos pela via municipal.

"Havia um compromisso do Deinfra em evitar os veículos pesados, mas isso não está acontecendo. Caminhões com todo tipo de peso estão passando. Se ocorrer algum deslizamento o rio será represado e o centro do município sofrerá uma cheia", alerta.

Um colégio particular da cidade foi interditado, existem pessoas desalojadas e muita tensão entre os moradores. Mas isso não impede que a Igreja Católica lidere um movimento de produção e envio de donativos aos flagelados de Itajaí, com a participação da Prefeitura, Polícia Militar e Defesa Civil. Cerca de 30 voluntários atuam na produção de pães, cucas e bolachas. com receitas caseiras tradicionais do município. Os ingredientes como ovos, trigo, leite, gordura vegetal, açúcar, fermento e maizena, estão sendo doados pela população.

Abaixo algumas imagens do trabalho dos voluntários de Santo Amaro da Imperatriz, feitas pelo fotógrafo Sílvio Knabben. Cortesia do jornal O Regional.






1 de dez. de 2008

As enchentes e o Código Ambiental de SC (2)

Luiz Alves (SC). Foto: Wilson Dias/ABr

A campanha iniciada pela professora Beate Frank e o Comitê de Bacia do Rio Itajaí começa a ganhar repercussão nacional. O Portal Eco Debate entrou no debate, publicando um artigo de Leonardo Aguiar Morelli intitulado "O outro lado do drama das águas em Santa Catarina".

Mídia francesa destaca calamidade em SC

Foto publicada no jornal Le Monde (Paris, França). Reuters/HO.


Mensagem do historiador Fábio Macedo, pós-graduando da Sorbone (Paris), sobre a repercussão das cheias.

"Camarada Celso,

Sim, estou acompanhando, inclusive pelo seu blog. Quando preciso mostrar para alguém daqui alguma coisa referente a tragédia, uso o blog...

O que eu fiz foi entrar em contato por telefone com o maior numero de amigos meus que vivem nas regioes atingidas. Minha irma vive em BC mas nao foi atingida diretamente.

Aqui na França, foi noticiado pelo LE MONDE, 25.11.08, "O sul do Brasil debaixo d'agua", segue o link...

O LE MONDE colocou ainda um video, "O sul do Brasil devastado pelas tempestades", segue o link...

O cotidiano LE PARISIEN também repercutiu recentemente, 29.11.08, "O saldo das inundações em Santa Catarina passa dos 100 mortos", segue o link...

O LE FIGARO e o LIBERATION, dois outros importantes jornais franceses nao noticiaram.

Na televisao, tanto o maior canal privado, a TF1, assim como nos canais da TV publica FRANCE TELEVISIONS, noticiaram a tragédia na semana passada.

Meu amigo, parabéns pelo seu engajamento e no que eu puder fazer, estou à disposiçao.

Forte abraço, Fábio Macedo".

Fábio Macedo (Florianópolis, 13.7.2007)

Cenas do início das cheias em Itajai












Itajaí, sexta-feira, 21.11.2008. Fotos: Erich Reinhardt (estudante UFSC e estagiario da RBS). Na ocasião sua casa ficou com agua a 45cm.