2 de dez. de 2008

Tensão e solidariedade em Santo Amaro

Voluntáriado em atividade. Foto: Sílvio Knabben.

Detalhe do rio Cubatão (7.10.2007).


O desvio do trânsito da BR-282 pela rua Pedro Nerí Schinden, na localidade de Vargem dos Pinheiros, em Santo Amaro da Imperatriz, está provocando rachaduras nas casas. Além disso, o secretário municipal da Indústria, Comércio e Turismo e integrante da Defesa Civil local, Luiz Gonzaga dos Santos, acaba de alertar para o perigo de represamento do rio Cubatão, devido ao intenso movimento de veículos pela via municipal.

"Havia um compromisso do Deinfra em evitar os veículos pesados, mas isso não está acontecendo. Caminhões com todo tipo de peso estão passando. Se ocorrer algum deslizamento o rio será represado e o centro do município sofrerá uma cheia", alerta.

Um colégio particular da cidade foi interditado, existem pessoas desalojadas e muita tensão entre os moradores. Mas isso não impede que a Igreja Católica lidere um movimento de produção e envio de donativos aos flagelados de Itajaí, com a participação da Prefeitura, Polícia Militar e Defesa Civil. Cerca de 30 voluntários atuam na produção de pães, cucas e bolachas. com receitas caseiras tradicionais do município. Os ingredientes como ovos, trigo, leite, gordura vegetal, açúcar, fermento e maizena, estão sendo doados pela população.

Abaixo algumas imagens do trabalho dos voluntários de Santo Amaro da Imperatriz, feitas pelo fotógrafo Sílvio Knabben. Cortesia do jornal O Regional.






1 de dez. de 2008

As enchentes e o Código Ambiental de SC (2)

Luiz Alves (SC). Foto: Wilson Dias/ABr

A campanha iniciada pela professora Beate Frank e o Comitê de Bacia do Rio Itajaí começa a ganhar repercussão nacional. O Portal Eco Debate entrou no debate, publicando um artigo de Leonardo Aguiar Morelli intitulado "O outro lado do drama das águas em Santa Catarina".

Mídia francesa destaca calamidade em SC

Foto publicada no jornal Le Monde (Paris, França). Reuters/HO.


Mensagem do historiador Fábio Macedo, pós-graduando da Sorbone (Paris), sobre a repercussão das cheias.

"Camarada Celso,

Sim, estou acompanhando, inclusive pelo seu blog. Quando preciso mostrar para alguém daqui alguma coisa referente a tragédia, uso o blog...

O que eu fiz foi entrar em contato por telefone com o maior numero de amigos meus que vivem nas regioes atingidas. Minha irma vive em BC mas nao foi atingida diretamente.

Aqui na França, foi noticiado pelo LE MONDE, 25.11.08, "O sul do Brasil debaixo d'agua", segue o link...

O LE MONDE colocou ainda um video, "O sul do Brasil devastado pelas tempestades", segue o link...

O cotidiano LE PARISIEN também repercutiu recentemente, 29.11.08, "O saldo das inundações em Santa Catarina passa dos 100 mortos", segue o link...

O LE FIGARO e o LIBERATION, dois outros importantes jornais franceses nao noticiaram.

Na televisao, tanto o maior canal privado, a TF1, assim como nos canais da TV publica FRANCE TELEVISIONS, noticiaram a tragédia na semana passada.

Meu amigo, parabéns pelo seu engajamento e no que eu puder fazer, estou à disposiçao.

Forte abraço, Fábio Macedo".

Fábio Macedo (Florianópolis, 13.7.2007)

Cenas do início das cheias em Itajai












Itajaí, sexta-feira, 21.11.2008. Fotos: Erich Reinhardt (estudante UFSC e estagiario da RBS). Na ocasião sua casa ficou com agua a 45cm.



A resistência dos flagelados (2)

Cena da enchente em Blumenau. Foto encaminhada por Ivone Grauppe Ventura (Blumenau) a Marize Lippel (Florianópolis), sem autoria definida.


Maro Schweder, historiador residente em Itoupava (Blumenau), encaminha uma avaliação da resistência dos flagelados em desocupar residências nas áreas de risco. Texto elaborado a pedido do Sambaqui na rede.

Observando a situação das pessoas no Vale do Itajaí, em meio a mais uma catástrofe natural, uma série de questões chamam a atenção. Entre essas podemos destacar os habitantes das chamadas “áreas de risco”. É grande a resistência por parte destes em abandonar suas casas. De um lado existe a pressão do poder público, que munido do argumento de “preservar a vida” desses indivíduos exige sua retirada imediata. Por outro lado, esses moradores alegam que não podem deixar seus lares sem mais nem menos. Há uma história construída naqueles lugares, segundo suas afirmações.

Esta manhã (01/12) ouvi numa rádio da cidade (a qual não me recordo o nome) uma entrevista com o comandante do corpo de bombeiros de Blumenau. Um dos temas abordados foi justamente o da resistência dessas famílias em deixar o local onde moram. Segundo ele, essas pessoas simplesmente não podem permanecer nessas áreas, e caso continuarem resistindo em deixar esses locais, será feito uso da “força” para “evacuar” essas regiões (termos utilizados pelos entrevistado).

Não resta dúvida que a questão é delicada. Sem dúvida o homem é um “animal social”, como já afirmou Aristóteles. Creio, particularmente, que esse “ser social”, inerente a nós seres humanos, não se refere apenas ao convívio com os demais, mas entra na perspectiva de uma “delimitação e construção de espaços”. Sendo retirados dessas “áreas de risco”, as pessoas não serão privadas do convívio social, mas sim do espaço. Parece-me, que no imaginário desses personagens, o espaço que ocupam está fortemente ligado com sua noção de vida social. Naquele espaço existe uma história, uma identidade como fazendo parte de um determinado grupo e espaço social. Deixar tudo isso para trás do dia para a noite, parece revirar o seu mundo de “cabeça para baixo”. Digo “mundo”, devido ao fato de tratar-se disso para os atingidos. Até ai, seus argumentos são convincentes.

Mas retornemos agora para a questão da “preservação da vida”. Esta no momento parece ser a maior preocupação do poder público. Quanto às casas, houve-se muito por aqui, e como até já veiculou nos meios de comunicação, serão reconstruídas; mas isto em outro instante. O que interessa agora é “salvar vidas”, conforme argumentam as autoridades.

Aí estão postas duas situações conflitantes: a do atingido pelas cheias e desmoronamentos de terra; e as autoridades que representam o poder público. Olhando a coisa de perto, e buscando compreender melhor o que está acontecendo por aqui, fica-se em dúvida. É comovente observar pessoas sendo retiradas de suas próprias casas. Quanto a isso, nosso lado humano (por mais que este esteja afetado pelo mundo “louco” em que vivemos) fica bastante sensibilizado. Mas creio que a “preservação da vida”, no final de contas, ainda é o mais importante.

Blumenau é uma cidade que possui uma série de problemas, e entre esses, sua geografia acidentada. Isso faz com que o trânsito seja bastante complicado, e que também surjam as chamadas áreas de risco. Nessas áreas, encontramos grande parte da parcela da população menos favorecidos economicamente da cidade. Mas também há uma série de deslizamentos em encostas onde estão construídas em sua maioria casas bem estruturadas, pertencentes a pessoas de razoável e elevado poder aquisitivo. Parece que por aqui, não apenas os “pobres” escolheram as encostas para morar. Talvez devido à geografia da cidade, esses sejam locais com vistas amplas e bonitas para os vales. Mas uma coisa é certa, são locais perigosos para morar. O constante risco de cheias no vale sempre coloca as pessoas de sobre-aviso. Basta chover um pouco mais, que aquele imaginário de 1983 e 1984 sobe à tona. E eis que história muito parecida se repetiu.

Hoje a coisa parece mais complicada. Há quinze anos atrás, o nível do rio Itajaí Açu esteve bem mais elevado do que por esses dias. Mas naquela vez, baixadas as águas, as pessoas puderam voltar para seus lares, fazer a limpeza de suas propriedades, e em questão de dias, lentamente suas vidas voltavam ao normal. Agora é coisa é bem mais complicada. O principal problema é a grande quantidade de desmoronamentos que levou muitas casas consigo, deixando ainda um grande número em situação de condenadas, não podendo mais ser habitadas por pessoas. Pelo jeito, a coisa vai demorar até se normalizar. Falam por aqui, de pelo menos um ano.

A bem da verdade, a discussão acerca dessas áreas de risco de tempos em tempos era levantada por alguma autoridade. Mas como (creio eu), sempre envolve interesses maiores, a questão sempre acabava caindo no esquecimento. Agora aconteceu o pior. Vemos claramente que algo tem de ser feito. Conforme especialistas que estiveram em Blumenau, em torno de 60% das áreas atingidas por esses desmoronamentos de terra não poderão ser mais ocupadas. Este provavelmente seja um dos maiores motivos que faz tantas pessoas relutar em abandonar suas casas. As pessoas parecem “desconfiar” que não poderão mais voltar. Não se trata de passar uma semana alojado em algum abrigo improvisado. É algo bem pior: não poder mais voltar “nunca mais” para o local onde residiam até então. É diante destas circunstancias, creio eu, que esta população resiste tanto. Além do que já falei acima, referente à construção do espaço e da história pessoal que cada um daqueles habitantes vivenciou naqueles locais.

Parece-me que em Blumenau a coisa é diferente do que no Morro do Baú. Não sei muito bem a realidade do segundo, mas parece se tratar de uma comunidade agrícola em sua maioria. O que a terra soterrou por lá não foram apenas casas, mas sim propriedades rurais de onde era retirado o sustento dessas famílias. Trata-se de camponeses em sua maioria. Talvez seja um problema ainda mais complicado do que se passa em Blumenau. Aqui, trata-se de trabalhadores urbanos, que em sua grande maioria poderão voltar para o trabalho assim que toda esta situação caótica se normalizar. No caso dos moradores do Baú não é bem assim. Essas pessoas estão perdendo tanto suas casas como seus meios de subsistência (propriedades agrícolas). Houve inclusive um caso de uma família que morreu soterrada, que já havia sido retirada do local, mas acabou retornando, onde encontrou a morte. Esse exemplo nos mostra bem a dramaticidade dessas pessoas.

Bem, de modo geral, esta seria minha visão acerca do que está acontecendo no Vale do Itajaí, precisamente Blumenau, onde resido. A preocupação por aqui continua grande. Ninguém sabe o que ainda pode acontecer. Qualquer pessoa que more numa área um pouco mais elevada tem motivos suficientes para se preocupar. Espero estar contribuindo com alguma coisa através de meu relato. Vou ficando por aqui. Um forte abraço, Maro Schweder.

Maro (Florianópolis, 23.4.2007)





Itajaí: com febre e diarréia só ganhou Plazil

A história começa com um funcionário público lotado em Florianópolis que se deslocou para Itajaí, onde seus pais e demais familiares eram vítimas das enchentes. O servidor atendeu os parentes e permaneceu na cidade prestando socorro a outros flagelados. No sábado ele passou todo o dia atuando como voluntário, entregando comida a água nas casas. No domingo se sentiu mal, com muita febre, dor de cabeça, vômitos e diarréia. Temendo o pior, procurou ontem o posto de saúde do bairro São Cristóvão (Itajaí), onde recebeu envelopes de Plazil e Paracetamol, sendo mandado embora. Não fizeram nenhuma coleta para exames. Se ele está com leptospirose ou ou coisa parecida, a saúde pública local nem tomou conhecimento.

O jornal O Estado de São Paulo está hoje com a seguinte manchete, assinada pelos repórteres Rodrigo Brancatelli e Júlio Castro: "FAB monta operação de guerra; 100 mil tiveram contato com água contaminada". A acrescenta que se trata da "maior ação da Defesa Civil na história do Brasil", havendo "21 pessoas com suspeita de leptospirose". A notícia destacada pelo jornal paulista deixou contrariadas as autoridades de Santa Catarina.

Cenas e personagens de Sambaqui








A resistência dos flagelados (1)

Bairro Progresso (Blumenau, 30.11.2008).
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil


O fato novo na recente tragédia das cheias é a obstinada resistência dos moradores em deixar suas casas. Existem vários relatos, inúmeras tragédias. O repórter de O Estado de São Paulo, Júlio Castro, fala em moradores fugindo para as florestas ante a aproximação de militares com seus helicópteros para o resgate. As chuvas continuam, as ameaças de novos deslizamentos também, um deles chegando a ferir um militar no Morro do Baú, segundo a Agência Estado.

Nesse momento, em Blumenau, equipes coordenadas pela Prefeitura iniciam a Operação Esperança visando a desocupação de cerca de 350 casas, a maioria do bairro Progresso, muitas na Itoupava Norte e Fortaleza, entre outros locais. A resistência dos moradores já foi observada em Ilhota, onde o prefeito foi o primeiro a assinar decreto autorizando o uso da força para a retirada de família de áreas de risco. Em Luiz Alves também.

Em Benedito Novo o geólogo Juarês José Aumond e o engenheiro florestal Heverson Thrun, identificaram como áreas de risco as comunidades de Tifa Girelli, Beco Theilacker, Rua Rodeio, Santa Rosa, Rio Ferro, Rio Cunha, Rio Tigre, Rio Fortuna, Travessão do Tigre, Ribeirão dos Russos e Ribeirão das Antas. As famílias que ainda permaneciam em suas casas, foram notificadas que devem se retirar. Muitas permanecem e só vão sair a força. Isso deve ocorrer ainda hoje.

Belchior (Gaspar, 30.11.2008).
Foto: Tobias Mathies (SDR-Blumenau)


Sambaqui na rede passa a ouvir especialistas e não-especialistas sobre esse fenômeno, ocorrido pela primeira vez, numa dimensão importante, na história recente de Santa Catarina.


"Oi Celso, Esta questão é tão dificil, fico sem palavras, busquei na psicologia para entender a cabeça dessas pessoas. Veja elas não estão em condições de refletir, estão destruídas emocionamente. Fiz este texto, mas para falar a verdade, colocar palavras em terra movediça é perigoso, a reação de cada um a estes desastres é única, mas existe um padrão destrutivo aí: querer retornar.

A vida em primeiro lugar

É compreensível que muitas famílias retornem as suas residências em áreas de risco? No ponto de vista meramente legal, é direito constitucional de cada cidadão brasileiro, o direito de ir, vir, permanecer e ficar. Talvez por isso que as autoridades não possam impedir completamente que as vítimas retornem as suas casas, com exceção dos menores que são tutelados pelo Estado.

Parece uma atitude irracional e atentatória a própria vida, percebida sob o olhar externo a fenômeno social. Esta reação das vítimas é classificada pela Psicologia social dos desastres como uma absorção passiva dos impactos. Isto quer dizer que a comunidade afetada não tem consciência do risco, o que faz aumentar a vulnerabilidade para novos desastres.

Muitos vitimados pelos desastres já devem ter perdido a confiança nas alternativas de restabelecimento de suas comunidades e de suas redes sociais e econômicas e buscam em atitudes desesperadas retomarem o seu cotidiano. As resistências às mudanças refletem muitas faltas (de segurança, de auto-conhecimento da comunidade, de respeito ao limites da Natureza). Estas comunidades sob o efeito traumático da perda e contato direto com a morte e destruição de suas bases simbólicas e materiais estão sem capacidade de fazer uma reflexão auto-crítica de seu futuro, buscam suas referências antigas, porque não conseguem lidar com as perdas.

Hoje, assistimos a uma grande mobilização solidária e cooperação com os desabrigados, mas e daqui a alguns meses como estará a vida destas pessoas? Se as áreas de risco forem novamente ocupadas, a vida estará ameaçada – é importante lembrar: nosso primeiro bem e direito primordial."

Fabiana Comerlato (Arqueóloga - MAE/UFBA)



Memórias da vida

"Ouvi que uma família previamente salva dos escombros voltou para a casa arrasada e acabou morrendo em um novo deslizamento de terra. Na hora pensei: 'Mas o quê estes caras tinham na cabeça?.

Agora, analisando friamente o episódio, mais um desta calamidade toda que desceu sobre Santa Catarina, envergonho-me e refaço meu pensamento. "É muito fácil falar. Mas quem saberia como reagir em um evento como este?". É mais do que óbvia a necessidade de sair das áreas de risco. Me parece correta a decisão de usar força policial para impedir que os desalojados tentem voltar para os locais onde correrão risco de morte novamente.

Mas será que eu não faria a mesma coisa? Quem consegue imaginar o que se passa na cabeça de um cidadão que perdeu tudo? Que perdeu pessoas da família? Será que a chance de resgatar um móvel, uma peça de roupa, um álbum de fotografias, com os registros impressos, as memórias de toda uma vida, não vale o risco? Será que, sob tamanha pressão psicológica e física alguém vê risco em um ato desesperado?

A única certeza que tenho é que, para quem está, como nós, confortavelmente instalado e distante da tragédia, é muito fácil falar".

Alessandro Bonassoli (Jornalista)